Autarca sente-se perseguido e discriminado Presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares há 33 anos, Jaime Soares não está cansado da vida autárquica. Bem pelo contrário, mantém viva e acesa a chama da paixão pela sua terra. Todavia, reconhece o desgaste que daí advém, sobretudo motivado pela «perseguição» que lhe movem «alguns indivíduos», ligados ao PS, que «querem a minha destruição pessoal». Outra frente de batalha vive-a com o Governo, que acusa de «autista» e «sectário»
Diário de Coimbra (DC) – O que é que ao fim de mais de 30 anos à frente da Câmara de de Poiares continua a mobilizar Jaime Soares? Jaime Soares (JS) - O que me mobiliza é a paixão que se continua a manter tão forte como em 1974. Sei que estou a pagar um tributo muito caro, porque estou há muitos anos num cargo que muita gente quer ocupar. A oposição não tem tido alternativas e os poiarenses assim o quiseram, pela confiança que têm comigo, pela empatia que fomos criando, pois não há quem consiga estar tantos anos no poder se não tiver uma aproximação grande com a população. Um presidente de câmara é um gestor da coisa pública a prazo e se não fosse essa confiança e amizade, teria já saído há muito tempo. Com certeza que isto também está acompanhado de respostas às ambições das populações, em relação ao crescimento e desenvolvimento da sua terra. Nasci aqui, fui aqui criado, julgo que tenho o espírito da raça poiarense e soube interpretar os seus sentimentos e paixões. Fruto disto, tenho uma vivência de autêntico sacerdócio, a lutar pela minha terra. E isso é um tributo bastante caro, mas a paixão é forte e continua, apesar do que me tem vindo a suceder….
DC – Refere-se às críticas da oposição?JS – A oposição socialista de Poiares cria uma ambiência na discussão política, não em relação à gestão, mas ao homem, Jaime Soares. Não tenho dúvidas que alguns indivíduos queriam a minha destruição pessoal, porque tenho vindo a tapar-lhes o caminho para dirigirem os destinos de Poiares. Mas não acredito que na Câmara entre uma pessoa que não tenha um perfil e características adequadas à vontade dos poiarenses. Defino, com as pessoas que estão comigo, uma estratégia na qual todos participam e dão o seu agrement. Claro que tem lidera tem sempre a possibilidade de, em última instância, decidir, e mal de um autarca, que não tenha essas convicções. Criámos uma forma de estar na governação autárquica vivida democraticamente, com respeito pela oposição. Mas em determinados momentos é dramático, é um tributo muito caro, tenho recebido os maiores enxovalhos. Basta ver alguns blogues.
DC – Que análise faz?JS - Há num blogue um diálogo onde dois indivíduos dizem: “o indivíduo quando morrer vai ter um grande funeral, vai levar as bandeiras todas, mas quero estar lá para ver se ele está mesmo morto”. Isto é bem demonstrativo da índole de alguns indivíduos. Sentimentos reais em quatro indivíduos que vivem em Poiares, cuja grande satisfação era verem-me destruído como homem. A razão do seu ódio prende-se com o facto de não lhes ter sustentado atitudes que prejudicariam o erário público e a população, para criar possibilidades do seu enriquecimento à custa de benesses da Câmara. Essa é a minha grande satisfação. Prefiro tê-los como inimigo, mas ter a consciência que faço uma gestão dirigida aos poiarenses. Por aqui se vê a situação que se vive. Não é uma questão do erro de políticas. São os mensageiros da desgraça, do enxovalho e insultos. Só as vezes que vou a tribunal! Há um senhor, que foi duas vezes comigo às urnas, que já fez mais de 500 folhas de queixas para a IGAT, IGF, Tribunal de Contas, tribunais, Associação Nacional de Municípios.
DC –Trata-se de perseguiçãoJS - São mais de 500 folhas! Queixas infundadas de tudo quanto há, perseguição a tudo, onde tudo é medido, analisado, reanalisado. Felizmente, ao longo destes 30 anos, nunca fui condenado. Ou os processos foram arquivados ou fui absolvido. Mas isto é dramático!
DC – Sobretudo desgastante…JS – Muito desgastante. Viver sempre nesta pressão, só mesmo um homem com uma grande paixão. Continuo a ter vontade de trabalhar e de fazer, talvez até mais, porque a experiência permite-me desenvolver outras estratégias e pode dizer-se que Poiares hoje continua com um ritmo vivo de desenvolvimento. DC - E o que falta fazer?JS - Já fizemos muita coisa, mas falta fazer muito. E garanto que, mesmo que a população duplique nos próximos 20 anos, algumas infra-estruturas têm capacidade de resposta.DC – O quartel dos Bombeiros é uma das obras de vulto e promete ser um dos melhores da região.JS – Não tenho dúvidas. No passado, os quartéis assumiram uma componente social e cultural. Era entendível, pois não havia praticamente nada nas terras e o quartel era quase um centro cívico…
DC – Uma filosofia plenamente aplicada em Poiares.JS – Era o centro cívico, com teatro, cinema, etc. também era uma forma de captar fundos para a sobrevivência dos bombeiros. Hoje o funcionamento e a administração dos bombeiros é e tem de ser diferente. A aposta é na estrutura operacional. Pode vir a ser um quartel central em termos estratégicos, que fica com um espaço subjacente, de cerca de 10 mil metros quadrados, onde pode ter heliporto e todo um conjunto de funcionalidades que podem ter um aproveitamento supra municipal.
DC – O actual quartel vai transformar-se em centro cultural…JS – Vai ser o ex-libris de Poiares. Quero deixar uma palavra de agradecimento aos bombeiros, que entenderam que era melhor para os bombeiros e que Poiares ganha muito mais com a adaptação do quartel a biblioteca, centro cultural, teatro, museu, salão de festas, escola de música, de teatro, uma infra-estrutura que vai marcar Poiares por muitas gerações.
DC – Em termos de empreitadas, há também o alargamento da zona industrial. Poiares é um concelho atractivo para os investidores?JS – É, só que sofre de um problema gravíssimo: as vias de comunicação. A estrada da Beira é o eixo fundamental para chegar a Poiares, Lousã, Miranda do Corvo e às vezes não entendo o silêncio dos meus colegas. Há dias vi inaugurações de pompa na Lousã e fico feliz por isso…
DC – E um conjunto de anúncios por parte do secretário de Estado. Qual é a sua análise?JS – É pena que esses anúncios sejam só de uma cor. Andamos há meses a pedir uma audiência ao secretário de Estado das Obras Públicas, à ministra da Educação, à ministra da Cultura, para resolvermos problemas importantes e não há uma audiência marcada, nem sequer dão uma resposta. Isto é escandaloso. Nunca depois do 25 de Abril senti uma situação destas, eu e os meus colegas, nomeadamente das áreas que não pertencem ao partido do Governo. Isto é politicamente desonesto, porque um governante tem a responsabilidade de governar para todos os portugueses, sejam ou não da sua cor política.
DC – Sente-se discriminado?JS – Completamente discriminado! Esta governação socialista discrimina os autarcas do PSD, discrimina Poiares. Não tenho inveja do que os outros municípios têm. Mas é injusto que se criem portugueses de primeira e portugueses de terceira, ou lousanenses de primeira e poiarenses de terceira. Não quero abrir e não abro um conflito com o presidente da Câmara da Lousã ou outro município que esteja a beneficiar desta dualidade de critérios. É mais um grito de revolta de alguém que sente que não pode dar às suas populações aquilo a que têm direito por causa de uma governação autista, sectária, que não é permitida em democracia
DC – Voltando a questão das acessibilidades…JS – Há muito tempo que está previsto o arranque da ligação da Lousã à Estrada da Beira. São boas variantes, mas chegam à Estrada da Beira e entram num funil. Vale a pena gastar dinheiro para fazer isso? A ponte Rainha Santa Isabel é uma maravilha, mas com aquele dinheiro teriam sido feitas 10 pontes em Coimbra e uma Estrada da Beira que efectivamente servisse Miranda do Corvo, Lousã, Poiares, Góis e criaria uma aureola de desenvolvimento à volta de Coimbra. A Estrada da Beira é uma situação crítica, a loucura das marcações horizontais e verticais, que são um atentado à dignidade humana e uma inequívoca demonstração da incapacidade técnica deste país. Havia alternativas. A Câmara de Poiares apresentou um projecto, avaliado como bom, onde era possível em 8,9 quilómetros entre Poiares e Coimbra, num sentido e noutro, ficarem zonas para lentos e de ultrapassagem e nada disso se fez. É uma vergonha pela qual responsabilizo todos quantos a ela estiveram ligados.
DC – E a ligação ao IP3?JS – A ligação a Penacova, ao IP3, é um drama. Estamos com um projecto há 20 anos. Quando um instituto aprova outro desaprova, está aprovado o traçado, querem-se alterações, depois um estudo geológico, um estudo sísmico. São situações dramáticas, suficientes para se desistir se não fosse a vontade de fazer pela sua terra e pela sua região. Esta via vai beneficiar Lousã, Miranda, pois passaria por aqui a ligação ao IP3. E temos de continuar. Se não se consegue transformar o IP3 em auto-estrada até Viseu, devemos transformá-lo onde for possível, nomeadamente entre Trouxemil e Penacova, para absorver o trânsito que deriva para Norte, de Góis, Pampilhosa, Arganil, Lousã, Miranda do Corvo. Pode ser o ponto de entrada no Pinhal Interior Norte, fazendo-se ali uma grande plataforma de divisão do tráfego.
António Miguel, vereador do PS“Quero, posso e mando”António Miguel faz uma análise negativa da gestão do executivo. O vereador socialista, que andou «nos bancos da escola» com o presidente da autarquia, lamenta a «prepotência» e «arrogância» de Jaime Soares. «É uma gestão do posso, quero e mando», onde «não há lugar ao diálogo». «Lamento que assim seja, porque o presidente podia usar os meus conhecimentos e não tenho quaisquer problemas em colaborar com o PSD para beneficiar o meu concelho», afirma Miguel.O vereador eleito pelo PS enfatiza a ausência de diálogo, de colaboração e «quando apresentamos qualquer proposta a resposta é taxativa: “a Câmara tem planos e sabe muito bem o que deve fazer”. Contra isto não há nada a fazer, quase dá vontade de virar costas, mas estou aqui por uma causa que entendo ser justa», diz.Afirmando que não tem nada de pessoal contra Jaime Soares, António Miguel sente-se, insultado pelo presidente da Câmara, que acusa de lhe chamar «pedante» e de ter posto em causa a sua capacidade de gestão nas empresas onde passou. «É lamentável que a arrogância comande e não haja espírito de colaboração».O vereador socialista critica ainda a gestão de Soares, considerando que «não há um plano de investimentos», o «concelho fica hipotecado». Miguel elogia o investimento privado, mas aponta um conjunto de falhas à autarquia, nomeadamente no sector do saneamento, «que não temos», e na falta de uma ETAR. Refere ainda «ilegalidades» na relação com a oposição, relativamente às quais pediu a intervenção do Ministério Público.